Atenas, democracia e desporto: o prémio mais cobiçado foi o azeite

Na Atenas dos séculos V e IV a.C., a paixão pelo desporto não era apenas um passatempo da elite, mas uma política imobiliária desejada pelo povo. Numa das democracias mais avançadas da história, o demonstrações (o povo) gastou somas astronómicas para organizar competições e festivais atléticos, venerando os campeões como heróis nacionais, embora a grande maioria dos cidadãos nunca tenha tido a oportunidade de treinar ou competir.

Esta é a fotografia que emerge da análise do historiador David M. Pritchard, que pinta um quadro fascinante e paradoxal do mundo desportivo ateniense. Por um lado, o desporto era considerado um bem supremo, tal como a coragem militar; por outro, era um privilégio reservado a um pequeno círculo de pessoas ricas, excluindo efectivamente 95% da população masculina.

Educação física: um luxo para poucos

O sistema educacional tradicional ateniense incluía três disciplinas: rato (música), o gramata (letras) e o goma de mascar (atletismo). Embora a leitura e a escrita fossem consideradas indispensáveis ​​até mesmo para as famílias pobres, o atletismo era um luxo. O Estado não subsidiou a educação, e as lições de um tribos pagas (instrutor de atletismo), muitas vezes ex-campeão olímpico, tinha um custo proibitivo.

Crianças ricas frequentavam essas escolas, aprendendo luta livre, boxe e pancrácio (uma espécie de kickboxing antigo) em academias particulares, e se aperfeiçoando no pentatlo e nas corridas. ginásio público. Para os filhos de agricultores e artesãos, que tinham de trabalhar para ajudar as suas famílias, a educação desportiva era um sonho inatingível. Como resultado, aqueles que participaram de competições, desde jogos locais até as Olimpíadas, eram quase exclusivamente oriundos da elite. O povo, apesar de não poder competir, amava o esporte e o venerava.

Esporte e guerra: uma aliança ideológica

Porque é que os pobres atenienses, excluídos das competições, continuaram a apoiar as políticas desportivas com tanto entusiasmo? A resposta reside na estreita ligação ideológica entre o atletismo e a guerra.

Atenas era uma cidade-estado em guerra quase perpétua. A guerra era vista como um mal necessário que trazia riqueza, poder e segurança. O atleta, assim como o soldado, foi aquele que suportou dificuldades (ponoi) e perigos (kindunoi), testando a coragem (arete) na frente do público. O povo reconheceu, portanto, no atleta um modelo semelhante ao do guerreiro, um herói que encarnava os valores fundamentais da cidade. Esta afinidade ideológica transformou o simples adepto num fervoroso defensor das políticas desportivas, o que se traduziu em festivais e jogos financiados pelo Estado.

Jogos locais: um investimento massivo

Munidos deste consenso, os atenienses votaram pela criação do maior programa de festivais desportivos da Grécia clássica. Com quinze festivais competitivos por ano, Atenas superou todas as outras polis. Para estes eventos, o demonstrações alocou uma quantia incrível: 2,6 toneladas de prata por ano.

Os jogos locais foram uma oportunidade de lazer, celebração e identidade coletiva. Durante as competições, os cidadãos faziam uma pausa no trabalho, assistiam a competições de tirar o fôlego e participavam de banquetes públicos. Entre estas, a Grande Panateneia, em homenagem a Atena, era a joia da coroa. A cada quatro anos, o estado gastava 650 quilos de prata em um festival de dez dias, mais do que as próprias Olimpíadas.

O prêmio mais cobiçado: azeite de Atenas

Mas qual foi o prêmio para os vencedores? Não coroas de louros, mas enormes quantidades de… azeite! As ânforas panatenaicas, esplêndidos vasos pintados representando a deusa Atena, eram preenchidas com o óleo sagrado produzido pelas oliveiras da Ática.

Os números são surpreendentes: o vencedor da corrida no estádio (cerca de 192 metros) levou para casa 80 ânforas, equivalentes a 2.889 litros de óleo. Um valor de mercado de cerca de 1.247 dracmas, quando um trabalhador qualificado ganhava um por dia. O vencedor da corrida de bigas recebeu 140 ânforas, no valor de mais de 2.000 dracmas. No total, durante as Grandes Panatenaias da década de 80 do século IV a.C., foram distribuídas aproximadamente 2.100 ânforas, contendo 75.845 litros de azeite, no valor de mais de 5 talentos (30.000 dracmas). Este investimento, ligado ao mito da fundação de Atenas, foi uma forma de afirmar a supremacia da cidade e a benevolência da sua deusa padroeira.

Um festival marcial: quando a deusa é guerreira

Ao contrário das Olimpíadas, as Grandes Panatenaias tiveram um sabor distintamente militar. Paralelamente às competições tradicionais (corrida, luta livre, pentatlo), foram realizadas provas únicas reservadas apenas aos atenienses: oapobates (uma corrida de bigas onde um soldado armado teve que saltar e voltar para a carruagem em movimento) e o ronronar (uma dança guerreira com escudo e lança).

Esses acontecimentos relembraram o mito do nascimento do festival: a vitória de Atenas contra os Gigantes. A deusa, lutadora por excelência, conduziu os deuses à vitória, e a dança e a corrida de bigas foram a sua celebração. A grande procissão panatenaica, imortalizada no friso do Partenon, viu desfilar milhares de soldados e cavaleiros, transformando a festa religiosa num gigantesco desfile militar. Para os atenienses, descendentes do primeiro rei Erictônio, nascidos da semente de Hefesto que caiu na terra, ser “filhos de Atena” significava ser um povo de guerreiros, e seus jogos eram a prova viva dessa descendência divina.

Em conclusão, o desporto na Atenas democrática era muito mais do que apenas competição. Foi uma poderosa ferramenta de coesão social, um palco para a ideologia guerreira e um colossal investimento público que uniu o povo na adoração da sua deusa e dos seus campeões, mesmo que o preço a pagar para subir ao pódio fosse, em última análise, a riqueza.

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