A crença de que encontrar um gato preto leva ao infortúnio está tão arraigada em nós que se torna muito improvável que mesmo a pessoa não supersticiosa, ao ver alguém atravessando a rua enquanto caminha ou dirige um carro, consiga não ter o mínimo de desconforto e mesmo fugazmente tenha a dúvida se deve continuar indiferentemente, ou parar para que alguém passe, ou mesmo voltar pela estrada.
Pessoalmente, testemunhei que enquanto viajava de carro com um amigo pelas colinas de Florença, cruzando de repente com um pequeno gato preto, o amigo freou repentinamente e foi atropelado por um carro que o seguia.
A desgraça foi causada por ele que freou bruscamente, certamente não pelo gato que estava atravessando.
Essa crença nefasta ligada à travessia de uma estrada por um animal foi se perdendo com o tempo, mesmo que inicialmente não se referisse ao gato.
Ele era adorado pelos egípcios (la a deusa Bastet, divindade da alegria e do prazer, tinha a forma de um gato).
Ovídio nas “Metamorfoses” escritas entre 332 e 325 a.C. diz que o gato é o animal no qual Diana escolhe se transformar para escapar da perseguição do gigante Tifeu que obrigou os deuses a fugirem para o Egito, escondendo-se sob o disfarce de alguns animais.
Teofrasto, discípulo de Aristóteles, cientista e filósofo da Grécia antiga que viveu desde 371 AC. C. a 287 aC em Atenas, em seu livro
“personagens” descreve vários tipos humanos, incluindo os supersticiosos. O dia de tal pessoa é pontuado por inúmeros cuidados e rituais: “ele fica chateado se as corujas cantam enquanto ele passa e, em particular, se uma doninha (e não um gato, portanto) cruza seu caminho, ele não avança antes que outro tenha passado por aquele caminho, ou antes que ele próprio tenha que atirar três pedras naquele trecho da estrada”. E Aristófanes refere-se a esta crença como se ela fosse completamente óbvia e familiar aos espectadores de uma famosa comédia (a assembleia de mulheres).
Então existe uma relação privilegiada do gato com a feminilidade. Na mitologia alemã, a bela Freya, deusa da fertilidade, é transportada por uma carruagem puxada por um par de gatos, enquanto no famoso ensaio sobre folclore, escrito em vários volumes pelo antropólogo e historiador siciliano Giovanni Pitrè, os habitantes locais acreditam que o gato é protegido por Santa Marta ou Santa Inês. É o mesmo estudioso que afirma que “…o ser que mais se aproxima do gato é a mulher”.
Porém, em determinada época, não sabemos exatamente quando, mas provavelmente na época medieval, o lugar da doninha foi ocupado pelo gato, animal igualmente noturno e predador.
Efetivamente o gato, mesmo após sua domesticação, sempre esteve rodeado de uma aura um tanto misteriosaencarnado por um caráter desapegado e individualista, elegante e silencioso em seus passos, pronto e ágil para capturar presas, aliado à sua capacidade de aparecer e desaparecer como num passe de mágica, com o dom natural de ver no escuro, quase como se fosse dotado de notas sobrenaturais.
Muito provavelmente, portanto, a superstição do infortúnio nasceu na Idade Média, quando a ambivalência em relação à sexualidade feminina e o terror das bruxas encontraram um ponto simbólico de coagulação no gato preto que na Idade Média cristã assumiu inequivocamente conotações satânicas. Em todo o folclore europeu este é o animal por excelência do diabo e das bruxas, sob cujo disfarce se escondem para fazer mal aos homens.
Durante muitos séculos, os gatos pagaram por esta identificação com perseguições e violências a que eram submetidos durante festivais e celebrações anuais. Em muitas regiões da Europa, grandes quantidades de gatos foram queimados vivos em fogueiras acesas na véspera de São João ou noutras ocasiões.
Nos séculos XII e XIII. Esta identificação aparece agora tão consolidada e difundida na Europa não só nas crenças populares mas também nos homens de cultura, como é atestado por “Imperial Otia” (Gervasio da Tilbury 1212), professor emérito da Universidade de Bolonha que afirma sem hesitação que “as bruxas nas suas incursões nocturnas assumem a forma do gato preto”.
No entanto, também existem crenças positivas sobre o gato preto.
É um sinal de sorte se for visto logo pela manhã ou melhor ainda na passagem de ano.
A dor nas articulações poderia ser curada esfregando a gordura aquecida de um gato preto.
Nos Estados Unidos, porém, é considerado um sinal positivo ser seguido por um gato preto.
Mas de uma coisa certamente podemos ter certeza: seja qual for a cor do gato, ele sempre será um excelente caçador de ratos.
Bibliografia
Dicionário de Superstições Helmut Hiller. 1993
Bomomo. Caça às bruxas 1959
Pitrè G. Costumes, crenças, preconceitos do povo siciliano. 1913
Massimo Centini. O Livro das Superstições 2000
Paulo Bartoli. Toque em Ferro. 1994
De Nola. O Espelho e o Óleo 1993