Enquanto todo o sector oleícola mantém os olhos postos nos olivais para avaliar o progresso da próxima campanha, ou discute animadamente as importações do Norte de África e os possíveis efeitos do abastecimento tunisino, um dado silencioso mas implacável vem directamente do mercado interno. É um soco no estômago que, segundo os operadores mais atentos, deverá finalmente abrir os olhos para uma crise estrutural que ninguém parece querer enfrentar com a devida seriedade.
O alarme foi dado pela Olimerca, que já tinha reportado anteriormente o preocupante abrandamento do consumo nacional em todas as categorias de azeite. As últimas conclusões, processadas diretamente pelo setor de embalagem e refinação, pintam um cenário no mínimo alarmante: no período entre janeiro e maio deste ano, as vendas caíram 10,52% face ao mesmo intervalo de 2025, com uma queda que, talvez ainda mais preocupante, se manifesta em todos os tipos de produtos.
A descida mais notória diz respeito ao azeite virgem extra, que viu a sua produção cair de 62.600 para pouco mais de 52.000 toneladas, com uma queda acentuada de 16,2%. Um colapso que não tem igual nem no azeite intenso, que passou de 13.300 para 11.300 toneladas, registando menos 15,53%. Melhor, mas apenas em termos relativos, é o azeite virgem, que regista uma contração marginal de 0,29%, enquanto o azeite doce cai 3,53%. O resultado global é que, em apenas cinco meses, passámos de mais de 130 000 toneladas de azeite embalado colocadas no mercado para pouco mais de 116 400 toneladas: uma perda de peso morto de quase 14 000 toneladas, o que equivale a um buraco de mercado de dimensão considerável.
Perante estes números, o setor já não pode refugiar-se na narrativa habitual de anos difíceis ou de flutuações económicas. O problema é mais profundo e diz respeito à relação agora rompida entre o azeite espanhol e os seus consumidores. Contudo, a solução não passa necessariamente – como muitos sustentam superficialmente – por uma simples redução dos preços no balcão. A redução das tabelas de preços pode, de facto, revelar-se uma estratégia míope, capaz de degradar a imagem de um produto que durante séculos representou um pilar da dieta mediterrânica e da identidade cultural espanhola.
O que parece cada vez mais urgente, no entanto, é um relançamento decisivo de ações promocionais no mercado interno, a realizar eventualmente com a coordenação do Interprofissional ou de outras organizações com efetiva capacidade de penetração nacional. Durante anos, o sector investiu enormes recursos para conquistar mercados estrangeiros, da Ásia aos Estados Unidos, negligenciando paradoxalmente o seu próprio quintal. O resultado é que hoje o consumidor espanhol, bombardeado por mensagens publicitárias genéricas e uma oferta cada vez mais padronizada, luta para reconhecer o valor acrescentado de um azeite virgem extra de qualidade em comparação com um azeite mais barato ou uma simples semente.
E nesta frente, o comércio retalhista em grande escala desempenha um papel que é tudo menos secundário. Há anos que os folhetos promocionais dos principais supermercados oferecem sistematicamente os mesmos quatro ou cinco rótulos, ignorando a extraordinária riqueza e variedade de um património olivícola que em Espanha conta com dezenas de variedades autóctones, denominações de origem e histórias empresariais únicas. Este achatamento da oferta, denuncia Olimerca, não só penaliza os pequenos e médios produtores, como acaba empobrecendo a cultura do consumidor, que já não está educado sobre a diversidade de sabores, aromas e intensidades que o azeite pode expressar.
Recuperar a confiança do público significa, portanto, repensar toda a cadeia de comunicação, restituindo ao azeite o seu papel de alimento nobre e identificador, e não de mero produto de exposição. Significa investir em campanhas de educação alimentar, degustações guiadas, contação de histórias dos territórios e colaborações com o mundo da restauração. Por último, significa exigir das prateleiras do grande comércio retalhista uma representação mais fiel e plural do melhor que a olivicultura espanhola pode oferecer.
Os sinos de alarme tocaram alto e claro. Agora cabe aos operadores do sector – produtores, embaladores, distribuidores e instituições – transformar este alarme numa oportunidade para regenerar o vínculo profundo que durante séculos uniu os espanhóis ao seu petróleo. Antes que seja tarde demais.