El Niño volta a ameaçar a agricultura mundial

Um novo episódio de El Niño poderá ocorrer nas próximas semanas, colocando novamente a agricultura global sob pressão e agravando a situação alimentar em algumas das áreas mais vulneráveis ​​do planeta. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e a Organização Meteorológica Mundial (OMM) estão a soar o alarme, prevendo um ciclo climático mais intenso do que a média.

As novas análises da FAO, baseadas em 41 anos de imagens de satélite processadas através do Sistema de Índice de Stress Agrícola (ASIS), identificam áreas onde os episódios mais fortes do El Niño causaram historicamente as condições de seca agrícola mais severas. Os resultados indicam uma elevada probabilidade de impactos significativos nas culturas e pastagens em grandes regiões do Sahel, na África Austral, no sul e sudeste da Ásia, bem como no Corredor Seco Centro-Americano e nas Caraíbas. Em algumas destas áreas a probabilidade de seca ultrapassa os 50%.

As consequências poderão ser particularmente graves em países já marcados por conflitos, fragilidade económica e insegurança alimentar. Segundo Jorge Alvar-Beltrán, chefe de Recursos Naturais da FAO, o novo episódio do El Niño insere-se num contexto profundamente diferente do passado: “O planeta hoje é muito mais quente e as populações vulneráveis ​​têm uma capacidade de resposta cada vez mais limitada”.

As experiências dos últimos anos confirmam a gravidade do fenómeno. O evento El Niño de 2015-2016 afetou mais de 60 milhões de pessoas e exigiu aproximadamente 5 mil milhões de dólares em intervenções humanitárias em 23 países. Mais recentemente, o ciclo 2023-2024 causou a pior seca na África Austral em cem anos, deixando 61 milhões de pessoas necessitadas de assistência e comprometendo a produção agrícola, a pecuária e a disponibilidade de água.

Em detalhe, a FAO destaca uma elevada exposição ao longo da cintura do Sahel, desde o Senegal à Nigéria até à Etiópia e ao Sudão, enquanto na África Austral a maior probabilidade de seca afecta a Namíbia, o Botswana, Angola, a Zâmbia, o Zimbabué, a África do Sul, Moçambique e Madagáscar. Na América Central e nas Caraíbas, o risco diz respeito, em particular, ao Corredor Seco, ao Haiti, a Cuba e à República Dominicana, bem como a algumas zonas da Colômbia e da Venezuela. Na Ásia, contudo, as possíveis repercussões envolvem importantes países produtores agrícolas, como a Índia, o Paquistão, Mianmar, a Tailândia, o Camboja, o Vietname, as Filipinas, a Indonésia e Timor-Leste, com efeitos potenciais também nos mercados internacionais de arroz e milho.

Para limitar os impactos antes que se transformem em emergências humanitárias, a FAO e o Programa Alimentar Mundial (PAM) lançaram um apelo conjunto de 202 milhões de dólares para apoiar 8,8 milhões de pessoas em 22 países de alto risco. A iniciativa inclui intervenções precoces em favor dos agricultores e pecuaristas, programas preventivos de assistência económica e o reforço dos sistemas de alerta precoce.

De acordo com as Nações Unidas, mais de 80% dos danos económicos causados ​​pela seca na agricultura recaem sobre países de baixo e médio rendimento. Neste cenário, a combinação de alterações climáticas, fenómenos meteorológicos extremos, conflitos e crises económicas torna cada vez mais urgente investir na prevenção, para evitar que uma crise climática se transforme rapidamente numa crise alimentar e humanitária de grande alcance.

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