A bolsa de valores recebeu a notícia com entusiasmo. A Bayer fechou a sessão de Frankfurt com um salto de 18,7%, a melhor subida dos últimos anos, depois de o Supremo Tribunal dos Estados Unidos ter emitido uma decisão destinada a ter um impacto profundo no longo litígio ligado ao Roundup, o herbicida à base de glifosato desenvolvido pela Monsanto e agora comercializado pelo grupo alemão.
A decisão diz respeito ao caso Durnell, no qual um cidadão do Missouri recebeu US$ 1,25 milhão em indenização alegando ter desenvolvido linfoma não-Hodgkin devido à exposição ao produto. No entanto, o Supremo Tribunal, com uma maioria de sete juízes contra dois, decidiu que a Lei Federal sobre Inseticidas, Fungicidas e Rodenticidas (FIFRA) prevalece sobre as regulamentações estaduais relativas à rotulagem de pesticidas quando a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) já fez uma avaliação definitiva sobre a segurança do produto.
Em termos práticos, os juízes consideraram que não é possível buscar indenização argumentando que o rótulo deveria conter um alerta de risco de câncer diferente daquele aprovado pela autoridade federal. Este é um princípio jurídico destinado a ter consequências potencialmente enormes, porque a maioria das ações movidas contra a Bayer nos Estados Unidos baseiam-se precisamente na alegada omissão de informações adequadas sobre os riscos para a saúde.
Para o grupo de Leverkusen a frase representa um ponto de viragem. Desde 2018, ano da aquisição da Monsanto por mais de 60 mil milhões de dólares, o litígio relacionado com o Roundup tem pesado nas contas e na reputação da empresa. A Bayer já destinou mais de 10 mil milhões de dólares para acordos de compensação e liquidação e está a trabalhar num plano de resolução colectiva de 7,25 mil milhões de dólares para encerrar permanentemente a maioria das disputas pendentes.
Segundo a administração, a decisão do Supremo deverá permitir o indeferimento de numerosos processos pendentes e dificultar muito a instauração de novos processos com base na chamada “falta de alerta”, ou seja, a não indicação de possíveis riscos no rótulo. O CEO Bill Anderson classificou a decisão como “boa para a ciência, para os agricultores e para a inovação”, sublinhando como o litígio tem sido um travão ao investimento e à confiança na empresa durante anos.
A decisão, porém, não encerra o debate sobre a segurança do glifosato. É essencial distinguir o nível jurídico do científico. O Supremo Tribunal Federal não se pronunciou sobre a carcinogenicidade da substância, mas exclusivamente sobre a prevalência da legislação federal sobre a legislação estadual sobre rotulagem.
Do ponto de vista científico, de facto, as avaliações continuam a ser divergentes. Em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), um órgão da Organização Mundial da Saúde, classificou o glifosato como “provavelmente cancerígeno para humanos” (Grupo 2A), com base em evidências limitadas em humanos e evidências suficientes em animais de laboratório. A classificação não mede o risco real resultante da exposição, mas identifica o potencial intrínseco da substância para causar cancro sob determinadas condições.
No entanto, a EPA dos EUA, a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) e a Agência Europeia dos Produtos Químicos (ECHA) têm uma opinião diferente, segundo a qual as evidências disponíveis não permitem que o glifosato seja classificado como cancerígeno para os seres humanos quando é utilizado em conformidade com os métodos autorizados. Esta diferença de abordagem também decorre das diferentes metodologias de avaliação adotadas: enquanto a IARC se concentra na identificação do perigo, as autoridades reguladoras realizam uma avaliação de risco considerando também os níveis de exposição.
Isso não significa que o glifosato esteja isento de problemas. Numerosos estudos continuam a investigar os possíveis efeitos a longo prazo da exposição crónica, especialmente para trabalhadores agrícolas e pessoas profissionalmente expostas. Outras pesquisas concentram-se nos impactos ambientais, na biodiversidade e na evolução de ervas daninhas resistentes, aspectos que alimentaram intenso debate científico e político em muitos países.
A decisão do Supremo Tribunal poderá, portanto, marcar o fim de uma longa temporada de litígios para a Bayer, mas é pouco provável que ponha fim ao debate sobre o glifosato. A questão da segurança do herbicida mais utilizado no mundo continuará de facto a ser objecto de estudos, avaliações regulamentares e debate público, num equilíbrio complexo entre necessidades de produção, protecção da saúde e sustentabilidade ambiental.