Com o passar da história e do tempo, algumas substâncias adquirem inexoravelmente uma dimensão mítica; isto é, transcendem a sua materialidade física e química, em sentido estrito, e manifestam-se na nossa mente como símbolos, como qualidades metafísicas ideais.
No inconsciente coletivo de uma cultura, a sua constituição material ocupa assim um segundo lugar em relação ao seu valor simbólico.
Segue-se que, em geral, a aparência real e a descrição científica destas substâncias que se tornaram míticas estão destinadas a desiludir-nos.
No caso do azeite, porém, o oposto é verdadeiro: mesmo quando o despojamos dos seus adornos simbólicos, das suas associações com o sagrado, o nascimento (baptismo), a morte (extrema unção), etc.; mesmo quando o reduzimos a um fenómeno laboratorial, seja ele químico ou sensorial, o petróleo continua a fascinar-nos.
Entende-se assim que o derramamento acidental deste elemento só pode trazer azar, pois instantaneamente nos falta “o concreto” e o “simbólico”.
A explicação racional e económica é-nos sugerida por um antigo provérbio toscano que diz literalmente(1) “Comerciante de vinhos, pobre comerciante; comerciante de petróleo, comerciante de ouroEsta hipótese é também apoiada por M. Pasquarelli(2) que considera que o assunto teve origem “em tempos em que havia grande abundância de vinho e faltava azeite”.
Outra hipótese econômica é proposta por Domenico Priori(3) que afirma que “à dispersão de um elemento precioso, devemos atribuir o arrependimento que se sente quando o petróleo é derramado, um arrependimento que facilmente se transforma em preocupação com o futuro, em ameaça de danos futuros”.
A maioria dos estudiosos, porém, sustenta que a origem desta crença deve referir-se mais do que a razões práticas, a valores de natureza simbólica, referindo-se ao petróleo, desde a antiguidade, pela sua multiplicidade de usos terapêuticos e cerimoniais.
Um teólogo católico do século XIX(4), de forma concisa e ao mesmo tempo exaustiva, escreveu: “Oleum sanat, lenit, recreat, penetrat ac lucet”. São muitas as virtudes deste produto que é ao mesmo tempo medicinal e calmante, cosmético e fonte energética de luz.
Como também bem resume Bartoli(5): “Material brilhante, precioso para a nutrição, cuidado e beleza do corpo, o óleo é também uma substância sagrada cujo uso é recorrente persistentemente nas cerimônias religiosas de um grande número de culturas antigas”.
Mesmo que o ritual de unção dos reis fosse praticado desde os tempos dos antigos gregos e romanos, é no entanto na tradição judaico-cristã que o óleo assume um carácter sagrado. como escreve Marc Bloch(6), esta cerimônia representava “o procedimento de transferência de um homem ou de um objeto da categoria do profano para a categoria do sagrado”.
Porém, uma vez aspergido, o óleo também servia para curar doenças como destaca o Evangelho de São Marcos onde é dito que “os apóstolos ungiram com óleo muitos enfermos e os curaram”. “Com o passar do tempo – como sugere Bartoli (5) – a unção dos enfermos assumiu o significado de preparação para a morte, passando assim a ser cada vez mais compreendida não só e não tanto como remédio para o corpo, mas como alívio para a alma que se prepara para abandoná-la: transformou-se, em outras palavras, no sacramento da extrema-unção”.
A partir desta observação, alguns estudiosos tentaram explicar a superstição que deriva do facto de o óleo derramado acidentalmente (não utilizado para fins alimentares), como acontece significativamente precisamente na administração da extrema-unção, ser, portanto, um sinal de infortúnio.
Paolo Toschi(7) afirma que a superstição do óleo derramado como presságio de azar está ligada às virtudes milagrosas e ao uso atual deste elemento em práticas mágicas e religiosas e “o facto de, ao ser derramado, se perder uma quantidade mais ou menos grande constitui, não só por si, mas como sinal a interpretar, um infortúnio”.
Segundo Angelo De Gubernatis(8) a origem desta superstição estaria também ligada ao significado fálico da oliveira concebida como árvore regeneradora. Para demonstrar isso, é citada uma variante “alemã” relativa à lenda da cruz de Jesus. Segundo esta lenda, o ramo de oliveira trazido pela pomba a Noé, depois do dilúvio, prelúdio da regeneração da raça humana, provinha de uma oliveira cultivada perto do túmulo de Adão, o primeiro homem e primeiro procriador. A madeira que serviu para construir a cruz utilizada para o sacrifício de Jesus, regenerador da humanidade, veio da mesma oliveira. Esta ligação entre a oliveira e a (re)generação física e espiritual faz-nos pensar, segundo De Gubernatis(8), num significado fálico da árvore, o que seria confirmado pela antiga crença segundo a qual o toque da oliveira por uma prostituta, ou seja, uma mulher que não dá à luz, torna esta planta sagrada estéril, ou seja, incapaz de regenerar o fruto.
O óleo seria, portanto, “a ambrosia desta árvore fálica”; daí, sugere Bartoli(5), “teria surgido o medo supersticioso de desperdiçar o elemento vital que simboliza a semente à qual é confiada a garantia da perpetuação da vida”.
Por fim, cabe destacar que, segundo crenças antigas, as consequências nefastas do derramamento acidental de petróleo podem ser neutralizadas espalhando-se sal sobre ele ou mesmo como aconteceu, como relata Caterina Pigorini Beri(9), no século passado nos Apeninos de Marche, “pela sobreposição ao óleo derramado, um ato de vida natural e muito vulgar”.
No entanto, voltaremos a falar sobre a complexa ligação entre o petróleo e o sal quando tratarmos do tema “sal derramado” (azar).
Bibliografia
1) F. Bellonzi, Provérbios Toscanos; 1987
2) M. Pasquarelli, Notas Folclóricas para a Basilicata, “Rivista delle Tradizioni Popolari Italiane”; 1894
3) D. Priori, folclore de Abruzzo; 1964
4) P. Dens, Theologia dogmatica et moralis; 1832
5) P. Bartoli, Toque de ferro; 1994
6) M. Bloch, Os reis milagrosos. Estudos sobre o caráter sobrenatural atribuído ao poder dos reis particularmente na França e na Inglaterra; 1973
7) P. Toschi, você acredita? Notas sobre superstições; 1957
8) A. De Gubernatis, La mitologie desplants ou les légedes du règne végétal; 1878-1882
9) C. Pigorini Beri, As superstições e preconceitos das Marcas dos Apeninos. Arquivo de Antropologia e Etnologia; 1854