Pecuária, o Parlamento Europeu muda de rumo: acabe com a narrativa punitiva

O Parlamento Europeu deu luz verde definitiva a uma nova estratégia para o sector pecuário, marcando um ponto de viragem em relação à narrativa que nos últimos anos muitas vezes retratou a pecuária como uma das principais culpadas das crises ambientais. A Câmara de Estrasburgo aprovou por larga maioria (426 votos a favor, 119 contra e 40 abstenções) o relatório de iniciativa promovido pelo Excelentíssimo Carlo Fidanza (ECR), que apela à superação das simplificações ideológicas para abraçar um modelo baseado na competitividade, na inovação e na sustentabilidade económica.

O documento apoia a criação de um grupo de trabalho dedicado no âmbito da “Visão para a Agricultura e Alimentação”, bem como a criação de um grupo de alto nível envolvendo todos os intervenientes na cadeia de abastecimento, com o objetivo de desenvolver soluções concretas adaptadas aos diferentes territórios europeus. Para o setor pecuário, o Parlamento pede um quadro regulamentar mais estável e simplificado, uma redução dos encargos administrativos e uma maior coerência legislativa a nível da UE, considerados elementos essenciais para garantir a competitividade das empresas.

Um dos passos mais aguardados diz respeito à defesa dos nomes dos alimentos. O relatório defende uma maior protecção do sector através de regras mais claras sobre a chamada “sondagem da carne”, a utilização de termos tradicionalmente associados à carne para descrever produtos alternativos à base de plantas. Apela também a uma regulamentação prudente de produtos alternativos e de carne sintética, atualmente no centro de um aceso debate político e científico. Na frente comercial, o Parlamento pressiona pela introdução de cláusulas-espelho nos acordos internacionais, exigindo que os produtos importados respeitem as mesmas normas sanitárias e ambientais exigidas aos agricultores europeus.

O texto aprovado promove também a modernização do setor através da inovação, da bioeconomia circular e da valorização de subprodutos, elementos considerados fundamentais para o fortalecimento das cadeias produtivas e ao mesmo tempo a redução do impacto ambiental. São também necessários instrumentos eficazes de gestão de crises e apoio a investimentos produtivos, especialmente nos sectores do melhoramento genético e da segurança do abastecimento de proteínas.

A reação das associações comerciais não tardou a chegar. O presidente da Assica, Lorenzo Beretta, agradeceu ao Honorável Fidanza pelos seus esforços, definindo o resultado como “uma verdadeira reabilitação” para o sector. “O Relatório representa a estratégia e a narrativa que esperávamos: uma abordagem mais inclusiva, não punitiva e não discriminatória em relação à criação de animais”, disse Beretta, que também lembrou iniciativas científicas como a “Declaração de Dublin” de 2022 e o “Apelo à Acção de Denver” de 2024, assinado por mais de 1.200 cientistas. Estes documentos destacam o valor ambiental, socioeconómico e nutricional da pecuária, ao mesmo tempo que indicam a necessidade de melhorias contínuas através de sistemas de produção mais ecológicos.

O presidente da Salumitalia, Cristiano Ludovici, está na mesma sintonia: “Depois de uma fase em que o setor pecuário foi frequentemente apontado como responsável por muitas questões críticas, o mundo científico reagiu demonstrando, através das evidências mais recentes, que a produção e o consumo de alimentos de origem animal podem ser sustentáveis ​​tanto para a saúde como para o ambiente”. Ludovici acrescentou que os sistemas pecuários devem evoluir de acordo com os mais elevados padrões científicos, mas permanecem “demasiado preciosos para serem reduzidos a simplificações ou visões ideológicas”. Segundo ele, o documento aprovado pode representar a base da futura estratégia europeia para a pecuária, prevista para o verão.

Não faltaram vozes críticas. Os grupos da Esquerda e dos Verdes votaram contra o relatório, acusando-o de ignorar o impacto ambiental do sector, particularmente as emissões ligadas à digestão animal, que, segundo a Agência Europeia do Ambiente, representam 49 por cento das emissões agrícolas globais.

Para concluir, Lorenzo Beretta sublinhou a importância de orientar as políticas da UE para um modelo baseado no equilíbrio, na variedade e no respeito pelas culturas alimentares. “Precisamos de uma resposta científica e política aos desafios nutricionais globais. Não existe uma dieta perfeita válida para todos, mas existem critérios objetivos para identificar as combinações alimentares mais adequadas”, afirmou, citando a Dieta Mediterrânica como exemplo de um princípio universal: nutrir adequadamente, não apenas saudavelmente. “É nesta base que poderemos construir uma nova literacia nutricional, capaz de aliar ciência, bom senso e liberdade de escolha”.

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