A alma de um azeite é a personalidade de quem o produziu

… Muitos não querem pensar que a cor do óleo também depende da luz com que você o olha.

Agora não há dúvida de que existem infinitas variedades de luzes, luzes ensolaradas, luzes de sombra, luzes de dia claro e luzes de dia chuvoso, e luzes de lâmpadas de todas as qualidades e intensidades. Nunca temos uma luz exatamente idêntica a outra. E, sempre, “nessa luz”, a cor de um óleo será ligeiramente ou muito diferente.

O mesmo, e ainda mais, para o aroma ou sabor.

Depende do local onde estamos, depende dos alimentos consumidos antes, ou mesmo da duração e qualidade do nosso jejum: e depende da constituição de cada pessoa, de como nos sentimos naquele momento, no dia, na companhia. Depende, sobretudo, das memórias que cada um guarda dentro de si: memórias de outras luzes, de outras cores, de outros perfumes, de outros sabores que experimentou na vida, memórias que ficam indeléveis no seu sistema nervoso e das quais muitas vezes nem têm consciência.

Finalmente, depende das vezes anteriores em que você provou o mesmo óleo (mas será que existe realmente um “mesmo óleo”?) ou um óleo semelhante.

Um azeite provado vários anos antes, numa época em que se estava particularmente feliz, por exemplo apaixonado e próximo de um ente querido, parecerá sublime mesmo que seja exactamente o contrário: para o distinguir, seria necessário não ter vivido!

É por isso que a minha forma de julgar um óleo é tão simples e sincera: um óleo (só, repito, ultrapassa um mínimo de qualidade) deve ser considerado como o rosto de uma menina, como um céu, um pôr-do-sol, uma paisagem, uma obra de arte, como algo, enfim, que vive e faz parte da nossa vida, não como algo que está desvinculado de nós, e estritamente definível em si mesmo.

São sensações que devem ser comunicadas aos outros não isolando-as, como numa mesa anatómica e à força de termos previamente estabelecidos, mas integrando-as o mais amplamente possível na história do dia, da hora, do momento: na descrição do lugar, do quarto, do almoço, da companhia: e na memória do nosso estado de espírito individual e particular.

Se algo tem importância absoluta, se é que alguma coisa, se algo revela e trai, para todos, a qualidade íntima de um azeite, é antes a personalidade de quem o produziu: desde que seja um
verdadeiro produtor, ou seja, sério, honesto, especialista, técnico, tradicional, acima de tudo apaixonado pela arte de moer: não alguém que faz azeite só porque dele tira vantagem
econômico, mas alguém que não poderia deixar de fazê-lo porque sabe que este é o seu destino: assim como um verdadeiro pintor não poderia deixar de pintar e um verdadeiro escritor não poderia deixar de escrever: um artesão, ou melhor, me corrijo: um artista!!!

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