A oliveira, os estorninhos e a cidade selvagem: como uma fruta antiga reescreve a geografia de Roma

Sabemos que a oliveira é um dos símbolos mais antigos e poderosos do Mediterrâneo. Que nutriu impérios, iluminou noites com o seu óleo e simbolizou a paz e a fertilidade é uma história bem conhecida. Mas será que esta árvore de raízes milenares se transformou num agente geográfico capaz de tecer as épocas da história de Roma, ligando um columbário augustano, a recuperação dos Pântanos Pontinos desejada por Mussolini e o caos urbano do século XXI? Esta é a surpreendente história que emerge de pesquisas recentes, que nos convidam a olhar a Cidade Eterna com novos olhos.

O ponto de partida é um artefacto do passado: o Grande Columbário da Villa Doria Pamphili, descoberto em 1984. No seu interior, entre os nichos que guardavam as cinzas de centenas de romanos, um friso retrata cenas da vida quotidiana com um motivo recorrente: oliveiras, juntamente com pássaros de plumagem escura. Estas aves, pelas suas características, foram identificadas como estorninhos (Sturnus vulgaris), já conhecidos naquela época pelo hábito de se alimentarem de azeitonas. O columbário, nesta perspectiva, já não é apenas um sítio arqueológico, mas um testemunho de uma Roma antiga que não conheceu a rígida separação entre o humano e o não-humano, entre a sociedade e a natureza, que caracterizou o projecto modernista de Mussolini. É um mundo híbrido, onde as fronteiras entre as espécies eram porosas e as relações eram comuns.

O fio vermelho que une aquele friso à Roma de hoje passa pelos Pântanos Pontinos, o Agro Pontino. Durante séculos, esta zona foi uma extensão de canaviais e águas estagnadas, habitat ideal para estorninhos que, nas suas extensões, encontravam abrigo para o inverno, enquanto nas vizinhas montanhas Lepini prosperavam os olivais que abasteciam a capital. Este equilíbrio milenar foi quebrado pelo ambicioso projeto de recuperação abrangente pretendido por Benito Mussolini nas décadas de 1920 e 1930. O Duce, enquadrando a operação como uma “batalha” contra uma natureza “inimiga”, drenou os pântanos, limpou-os da malária e criou uma paisagem agrícola idealizada, pontilhada por novas cidades como Littoria (hoje Latina). Sua visão era uma separação clara: campo fértil e controlado versus cidade, e uma natureza domesticada e submissa. Esta “purificação” da paisagem, porém, teve consequências imprevistas. As imensas extensões de caniçal, que eram o refúgio invernal dos estorninhos, foram apagadas para dar lugar a campos de trigo e a uma arquitectura rural tranquilizadora. Assim, rompeu-se o “delicado tecido de relações entre coisas e pessoas” que o modernismo fascista, na sua arrogância, escolhera ignorar.

Expulsos do seu habitat tradicional, os estorninhos tiveram que se reinventar. A sua história entrelaça-se então com outra consequência do progresso: a expansão urbana e o asfalto após a Segunda Guerra Mundial. O crescimento de Roma, com o seu tráfego e estruturas, gerou uma ilha de calor urbana, um microclima mais ameno que, nas noites de inverno, pode ser até 5 graus mais quente do que a paisagem circundante. Foi este chamado de calor, oferecido involuntariamente pela cidade humana, que orientou os novos êxodos. Os estorninhos, em busca de refúgio para o inverno, têm como alvo o centro de Roma, transformando o Lungotevere e as praças da capital nos seus “dormitórios”. E, na sua nova vida urbana, as azeitonas voltaram a desempenhar um papel crucial. Voando todos os dias dos olivais das montanhas Lepini até os plátanos de Roma, os estorninhos trazem suas presas para a cidade, consumindo-as e depois devolvendo-as na forma de um guano rico em azeite.

Esta transformação ecológica produziu um impacto que é tudo menos simbólico. As estradas por baixo dos poleiros dos estorninhos, que em alguns invernos albergavam até um milhão e meio de espécimes, tornaram-se perigosamente viscosas e malcheirosas, forçando o encerramento de troços inteiros de estradas e operações de limpeza massivas. Os óleos essenciais contidos nos excrementos, quando alterados, liberam um odor penetrante, ligado a mecanismos de comunicação química no mundo animal. A chuva de caroços de oliveira atingindo carros e calçadas criou uma paisagem sonora nova e inesperada. Neste contexto, o conflito homem-estorninho explodiu no debate público, tornando-se uma peça na narrativa da degradação de Roma e um capítulo de uma história política feita de protestos e tentativas (muitas vezes sem sucesso) de afastar as aves com gritos de socorro ou mesmo com um falcão treinado.

A geografia deste conflito estendeu-se então ao Cemitério de Verano, onde os estorninhos, deslocados do Lungotevere, pousaram nos túmulos, desencadeando uma nova e delicada questão: o guano nos enterros dos “humanos do passado” gerou uma intensidade emocional que levou a que os monumentos fossem cobertos com lençóis de plástico. A oliveira, neste percurso que começou na antiguidade e passou pelas utopias fascistas, surge como o símbolo de uma cidade que nunca foi apenas humana. A sua história é a de uma releitura de Roma como um organismo vivo, um acúmulo de relações “mais que humanas”, onde os estorninhos inscreveram a sua agência, a sua capacidade de agir e “criar o mundo”, muitas vezes em contraste com os projetos de ordem e purificação dos homens.

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